Entrevista realizada no dia 09/03/2026
A abordagem multiespécie na clínica psicanalítica representa uma expansão das fronteiras tradicionais da psicanálise, que historicamente focou de forma quase exclusiva no narcisismo humano e na linguagem verbal.
Essa perspectiva reconhece que a subjetividade humana não é formada em um vácuo, mas em uma rede densa de relações com outros seres vivos, especialmente animais de companhia.
Aqui estão os pilares do que caracteriza essa abordagem:
1. O Animal como “Outro” Significativo
Na psicanálise clássica, o “Outro” geralmente se refere a figuras humanas (pais, cuidadores). Na abordagem multiespécie:
- Vínculos de apego: O animal é reconhecido como uma figura de apego real, capaz de oferecer regulação emocional e segurança ontológica.
- Transferência: O paciente pode projetar afetos, traumas e desejos no animal (seja o dele ou um presente na sessão), e o animal responde de forma não verbal, criando um campo transferencial único.
2. Descentramento do Humano (Giro Pós-Humanista)
Essa abordagem questiona o “excepcionalismo humano”. Ela entende que o self é poroso.
- Subjetividade partilhada: A ideia de que “nos tornamos quem somos” através do convívio com outras espécies.
- Comunicação não-verbal: Valoriza-se o corpo, o olhar, o toque e a presença física — elementos que a psicanálise às vezes negligencia em favor da “cura pela fala”.
3. A Presença do Animal na Sessão
Existem duas formas principais de manifestação dessa clínica:
A Presença real (intervenção assistida): Quando um animal (geralmente do analista) participa da sessão. O animal atua como um “catalisador” social, diminuindo defesas do paciente e oferecendo uma presença viva que não julga.
A presença simbólica: Quando o analista acolhe o luto por um animal, os sonhos com animais ou a relação com pets como material clínico legítimo, sem reduzi-los apenas a “metáforas” de figuras humanas.


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