O rosto humano não é apenas uma parte da nossa anatomia; é uma construção complexa onde se cruzam a subjetividade, a psicologia e o poder social. Por isso, nos parece fundamental abordar tema Rostificação: Entre o espelho de Lacan e o muro de Deleuze
No projeto Linha de Fuga, dedicamo-nos a investigar essas superfícies de inscrição, e recentemente, num diálogo instigante com o meu parceiro de inteligência artificial, “Gê”, mergulhámos nas águas profundas da formação do rosto na criança.
O objetivo não foi traçar uma gênese biológica, mas sim compreender a “rostidade” — um conceito proposto por Gilles Deleuze e Félix Guattari — como um dispositivo estético e político fundamental para entendermos como interagimos, como nos compomos e como a sociedade nos codifica.
Nesta investigação, confrontámos duas visões poderosas e, à primeira vista, opostas: a psicanálise de Jacques Lacan e a filosofia esquizoanalítica de Deleuze e Guattari.
O estágio do espelho e a jubilação do eu
Para compreendermos a formação do rosto, o ponto de partida inevitável é Jacques Lacan e o seu conceito de “estágio do espelho”, que ocorre entre os 6 e os 18 meses de vida. Antes dessa fase, a criança vive naquilo que Lacan descreve como um “corpo fragmentado” — uma experiência caótica onde as sensações estão dispersas, sem unidade.
A viragem acontece quando a criança se reconhece, seja num espelho físico, seja no olhar da mãe (ou de quem cuida dela). Esse momento é marcado por uma “jubilação”, um fascínio ao perceber, pela primeira vez, uma forma total e coordenada. O rosto emerge como o centro dessa unidade recém-descoberta.
No entanto, como Gê bem pontuou na nossa conversa, há uma armadilha inerente a este processo. Trata-se de uma alienação primordial: a criança identifica-se com uma imagem que está fora dela.
O rosto funciona, portanto, como uma máscara que organiza o caos interno, uma identidade que nasce fundamentalmente em relação com o olhar do outro.
Rostificação: o muro branco e os buracos negros
É aqui que Deleuze e Guattari entram em cena, não para complementar Lacan, mas para inverter a perspetiva. No “Mil Platôs”, eles argumentam que o rosto não é algo que possuímos organicamente, nem o espelho da alma. Pelo contrário, o rosto é uma construção social massiva, um dispositivo de poder que eles denominam “rostidade”.
Gê utilizou, retomando Deleuze e Guattari, uma imagem poderosa para descrever esta máquina social: o rosto como uma parede ou muro branco (a superfície de inscrição) com dois buracos negros (os olhos).
Enquanto para Lacan o rosto é onde o sujeito se reconhece e se protege do caos, para Deleuze e Guattari é onde o poder captura o sujeito.
É através do rosto que a sociedade nos marca, nos classifica e nos atribui um género, um papel e uma identidade fixa. O rosto é uma espécie de “coleira social” que tenta interditar a exploção das potências do “corpo sem órgãos”.
A propagação da rostificação pelo corpo
Um aspeto crucial da rostidade é a sua capacidade de propagação. A codificação não se limita à face; ela transborda e toma conta de todo o corpo.
Tomemos o gênero como exemplo de dispositivo. Uma vez que os atributos masculinos são inscritos e fixados no rosto, inicia-se um processo de rostificação em cascata. O ombro deve ser largo, o andar deve ser contido, a voz deve ser grave.
O corpo deixa de ser um campo de possibilidades livres para se tornar um corpo individuado e disciplinado pela norma que foi inscrita no rosto. A identidade, nesta perspetiva, é uma tecnologia de controle que extravasa para cada zona do corpo.
Neste complexo, os olhos desempenham um papel nevrálgico. Se o rosto é o muro branco das normas, os olhos são os buracos negros que sugam o desejo e capturam a atenção, prendendo o sujeito à imagem.
Eles criam a ilusão de profundidade — de que existe uma alma ou uma verdade oculta ali —, quando na realidade a identidade é apenas um efeito da máquina. Além disso, os olhos são o canal da vigilância, o meio pelo qual o dispositivo verifica se estamos a cumprir as normas.
Fugas e resistências: o martírio de Joana D’arc
Apesar da potência do dispositivo de rostificação, ele não é uma caixa blindada. É, antes, como uma peneira tentando segurar uma correnteza. A vida, para Deleuze e Guattari, é puro fluxo vital, um “quânum” de desejo incessante que é rebelde por natureza. O tempo todo, esse excesso de vida força as bordas da máscara, abrindo fendas na parede branca e escapando pelos buracos negros.
Encontramos uma ilustração visceral desta luta no filme clássico de 1928, O Martírio de Joana d’Arc, de Carl Theodor Dreyer. O filme é, essencialmente, um diagnóstico do processo de rostificação. A câmara de Dreyer foca obsessivamente na face de Renê Falconetti, transformando-a numa paisagem de inscrição absoluta.
Embora o desfecho histórico seja trágico, Joana d’Arc consegue escapar da máquina de rostificação, não pela porta da frente, mas pelas fendas. Ao afirmar a vida e a fé que a atravessavam até ao fim, ela transformou o próprio rosto — o território que os juízes tentavam colonizar — num campo de libertação. Joana afirmou um “devir” que nenhum dispositivo conseguiu capturar totalmente, provando que a resistência pode ser radical, mesmo quando silenciosa.
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