No filme Blow-Up (1966), de Michelangelo Antonioni — baseado no conto As Babas do Diabo, de Julio Cortázar —, a narrativa transcende o simples relato, para se tornar uma profunda investigação sobre o estatuto ontológico da imagem.
Segundo nossa leitura, a trama se desenrola em duas trilhas narrativas paralelas que, ao colidirem, desafiam a nossa percepção sobre o que é a realidade e sua relação com os dispositivos técnicos de produção de imagens.
A primeira trilha acompanha a rotina de um famoso e egocêntrico fotógrafo de moda na efervescente Londres dos anos 1960 (Thomas). Este estrato do filme ilustra perfeitamente a tese de Jean Baudrillard, segundo a qual as imagens produzem sobre nós uma certa ordem de violência.



No mundo da moda, por exemplo, os corpos femininos são objetificados e sacrificados em prol de uma simulação estética. As modelos são submetidas a constrangimentos físicos e psicológicos para forjarem expressões ditadas pelo fotógrafo e se transformarem em meros produtos publicitários rentáveis, um processo em que o ser humano real é apagado pela sua representação imagética.
A ruptura entre os planos narrativos ocorre quando o protagonista decide fotografar um casal em um parque para finalizar um livro autoral. Ao revelar e ampliar essas imagens em seu estúdio de forma obsessiva, ele descobre a figura de um cadáver, que na foto aparece sob uma densa cobertura de ruído fotográfico, devido à ampliação da imagem.
Surge então a segunda categoria de Baudrillard: a “violência que nós fazemos à imagem”. Em seu desespero, o fotógrafo tenta espremer a fotografia até o limite da granulação total, para obrigá-la a revelar uma verdade concreta e corpórea. Contudo, a imagem resiste; ela não possui nenhuma verdade oculta a declarar, além do simples fato de existir enquanto imagem.






Antonioni utiliza essa frustração, a nosso ver, para desconstruir o mito de que a fotografia seria um “duplo fiel da realidade”. Ao contrário do que a sociedade tende a acreditar, a câmera (mesmo a analógica) não captura a essência do mundo material, mas apenas um determinado “estado da luz”, existente na cena fotografada.
Diante da lente, o objeto fotografado permanece sempre incerto. A imagem atua no registro do inconsciente, do onírico, como uma suspensão fugaz da realidade, e não como uma prova cabal de sua existência mediada pela razão.
A aceitação da fotografia como sinônimo de irrealidade culmina na brilhante cena final, em que o protagonista assiste a um grupo de mímicos jogando uma partida de tênis sem bola.
Ao aceitar participar do jogo e “devolver” a bola invisível à quadra, o fotógrafo rende-se à indiscernibilidade entre o real e a ilusão. A reflexão levantada pelo filme mostra-se vital e assustadoramente contemporânea.
Vivemos hoje imersos em um regime de captura imagética (como Instagram e Facebook), onde simulamos incessantemente versões de nós mesmos para existir social e economicamente. Blow-Up, portanto, nos lembra que o mundo que habitamos é, muitas vezes, apenas um jogo de aparências moldado pela luz.
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Blow up, Michelangelo Antonioni (1966)
Onde assistir
https://youtu.be/DNP6HqX7H9w?si=aQhDjUW8dJz7Id3d
https://youtu.be/OGGRY_Nebo0?si=geH53ralG27EFFVo
Cortes sugeridos
Trailer
https://youtu.be/TrJ9U75OZOw?si=TvEp_8f2o3lTdHmS
Fotos e revelação
https://youtu.be/Q62gRiUrylw?si=wmHrOMD00kz3fp8P
Modelos
https://youtu.be/3HhQJRlNpCc?si=o5QNUb0ip0VSoVEF
Cena final (partida de tênis)
https://youtu.be/4TYyhRbQBgs?si=foN9bEx8bcExvHNU


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