Preconceito e exclusão

O encontro teórico entre a análise sociológica de Leo Löwenthal1 e a filosofia de Roberto Esposito2 revela uma anatomia perturbadora no discurso contemporâneo.

Enquanto Löwenthal decodificou as técnicas de desumanização de agitadores de rádio de meados do século XX, Esposito oferece a estrutura teórica para compreender sua eficácia comunicacional.

Retrato do sociológo alemão  Leo Löwenthal
Leo Löwenthal
Foto do filósofo italiano Roberto Esposito
Roberto Esposito

A metáfora infecciosa

Löwenthal, que pesquisou programas de rádio nos Estados Unidos, identificou que os agitadores não utilizavam argumentos racionais, mas sim a criação de um estado de alerta permanente para suas finalidades de disseminar discursos excludentes.

A ferramenta central em suas práticas discursivas é a metáfora infeciciosa: ao associar grupos marginalizados a agentes contagiosos, o debate é deslocado da esfera política para a preocupação com a sanidade da população.

A partir dessa perspectiva “sanitária”, os que são considerados diferentes, deixam de possuir direitos e passam a ser tratados como uma ameaça à integridade do organismo nacional.

Imunidade vs. comunidade

Para Esposito, a communitas (comunidade) exige abertura e exposição ao outro.

Ao mesmo tempo, as sociedades reagem a essa vulnerabilidade (exposição) por meio de processos e práticas imunitárias.

Esse dispositivo busca proteger a vida de forma negativa, isolando o corpo social do que lhe é exterior para evitar o “contágio” do que chega “de fora”.

AutorConceito chaveFunção no discurso 
Leo LöwenthalDesumanização infecciosaTransformar o oponente em em agente contagioso
Roberto EspositoDispositivo de imunizaçãoProteger o corpo social por meio da exclusão do “outro”.

Estudo de caso

No universo de Ray Bradbury3, autor do livro Fahrenheit 451 (1947), o pensamento crítico é tratado como um desvio biológico. A personagem Clarisse (a professora primária), por exemplo, personifica essa “patologia”, conforme segue.

O registro de Löwenthal: a curiosidade de Clarisse é vista como um agente infeccioso capaz de contaminar as crianças.

A escola realiza uma “limpeza” ao expulsá-la, tratando-a como um objeto contaminado.

O dispositivo de Esposito: a escola opera como o dispositivo de imunização, fechando-se hermeticamente contra a abertura ao outro e ao diverso que Clarisse oferece.

A professora é supeita de ler e guardar livros — proibidos dos na sociedade de Fahrenheit 451 — e por isso é isolada.

Sanitazação do ambiente: a queima de livros que ocorre no romance e no filme não visa apenas destruir ideias, mas efetuar uma espécie de saneamento da sociedade

A meta consiste em esterilizar o ambiente, tratando o livro como um vetor patogênico, que pode contaminar crianças e pessoas com “ideias perigosas”.

A catástrofe imunitária

A obsessão de eliminar o que é considerado “infectante” gera o que Esposito chama de catástrofe da imunização: o corpo social acaba por atacar a si mesmo.

Ao “imunizar-se” contra a alteridade, a sociedade destrói as bases da convivência democrática e a pluridade de que necessita para sobreviver como entidade coletiva.

Transformar, mesmo que simbolicamente, seres humanos em agentes infecciosos ameaça seus direito vitais, tornando a preservação da ordem estabelecida em algo indissociável da produção de uma exclusão radical e desastrosa.


  1. Leo Löwenthal (Frankfurt am Main, 3 de novembro de 1900 — Berkeley, Califórnia, 21 de janeiro de 1993) foi um sociólogo alemão, ligado a Escola de Frankfurt. ↩︎
  2. Roberto Esposito (Nápoles, 1 de fevereiro de 1950) é um filósofo italiano, especialista em filosofia moral e política. ↩︎
  3. Ray Douglas Bradbury (Waukegan, 22 de agosto de 1920 — Los Angeles, 6 de junho de 2012[1]) foi um escritor e roteirista estadunidense, que autou em uma variada gama de gêneros como ficção-científica, horror e fantasia. ↩︎

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